Mark Rocha

Por Francisco Cornejo

mark rocha.jpg

Falar em patrimônio da vida noturna paulistana para nos referirmos a Mark Rocha soaria algo cafona. Sobretudo seria completamente incompatível com o espírito inquieto e o gosto sofisticado deste que é um dos principais seletores daquelas pistas mais musicalmente exigentes do universo LGBTQ+ que não sucumbiram aos apelos do pop facinho e faceiro.

Ele manteve uma reputação ilibada entre um público mais discernidor da musicalidade que ajudou a fundar toda uma tradição de hedonismo militante e, no processo, criou toda uma cultura de apreciação musical que se disseminou muito além dos cenáculos dos entendidos. Em suma, o som de Mark agrada todos que estão dispostos a se deixar levar pelas sutilezas intrincadas de qualquer groove que contenha aquele refinamento do qual a música comercial acaba por abrir mão.

Ele também é o fundador da Beatcoin, festa que já levou ao lado de lá da Avenida Paulista, o mais historicamente fervido, praticamente todos os seus pares, DJs que, como ele, estão apenas interessados numa coisa: verter elementos musicais na pista e ver o que acontece com os corpos nela. Muito daquilo que ele depura neste mix para nós.

Seja pelas iniciativas ou pelas aparições, você já é uma figura central da vida noturna dessa nossa cidade, mas como essa relação se estabeleceu? Quais foram suas primeiras aventuras como DJ?
Que a House Music faz o meu sangue correr isso já está bem claro na cenário, em meados de 2006 que foi as minhas primeiras aparições nas festas de SP onde comecei a sentir falta de algo mais encorpado e com uma atenção maior ao segmento. Com o passar dos anos senti vontade de produzir aquilo que eu sentia falta, e em 2009 criei meu primeiro projeto underground House em solo paulistano, a PING PONG. Mas foi em 2013 que iniciei o meu projeto mais significativo até então, o “igreginga” , com duração de 5 anos sempre as quintas no Igrejinha bar.

Seja dentro ou fora dos círculos LGBTQ+, sua musicalidade sempre consegue extrapolar conceitos circunscritos e obedece um critério curatorial rigoroso o suficiente para lhe permitir trafegar por muitos públicos. Como foi construir essa personalidade e cultivar a habilidade quem vem com ela?
Ouvido e observação. Foi com um olhar bem criterioso nas rápidas mudanças dentre esses anos nas festas que senti a necessidade de manter a minha identidade com pesquisas mais profundas e aprimorar técnicas de mixagens.

Claro que a Beatcoin é parte central desse trajeto que acabou por se tornar uma das mais distintivas plataformas de disseminação musical da cena paulistana. Qual é a história desse projeto?
Posso dizer que a [beatcoin] é o meu Pet rsrs… que na verdade é uma continuação da igreginga, porém antes de encerrar as atividades do projeto em dezembro de 2017, eu já sentia que precisava criar algo novo, um novo nome, um novo endereço, mas que mantivesse a mesma identidade e compromisso com a House Music que a igreginga tinha. A criptomoeda já estava na língua de todo mundo e resolvi brincar com isso, a priori o projeto ia se chamar [bitchcoin] , mas o nome foi censurado nas redes sociais por conter um “palavrão” rsrs… coisas do nosso atual chato tempo, não deitei e já me veio beat em mente, que apesar de óbvio tem a mesma sonoridade e com escrita mais bonita em logo.

E deste mix, qual a história dele? De onde vem e para onde vai? O que pretende? Com quem se pareceria se fosse um boneco de cera? Qual seu signo? Agora, se pudesse dar algum conselho àqueles que pretendem se aventurar nessa vida selvagem da noite como parte da fauna que a compõe, qual seria?
Nesse set tem muito de mim, muito mesmo. Canceriano q sou, ele muda de humor com uma certa facilidade, mas sem sair do tom rsrs… Preparei algo bem especial para o deepbeep, ele abre com o sax de “Cada Vez - Negrocan” q acho q ficaria bem pra entrarmos no clima, espere por muito Future Disco, Cosmic House e alguns Deeps de pesquisa atual, pra fechar escolhi “Shake Your Body (Down To The Ground)” - The Jackson 5 por “Late Nite Tuff Guy”.

Não sei quem eu me pareceria num boneco de cera, mas adoraria me ver numa versão Elvis Presley tupiniquim, no mínimo ia ser engraçado. Não gosto de dar conselhos, não me sinto a vontade nessa posição, mas pra quem tá começando eu sugiro que antes de começar qualquer coisa, que se encontre no seu estilo musical preferido, DJ e festa sem identidade dá um sooono rsrs…