Mauricio Fleury

por Francisco Cornejo

Vertendo sets ecléticos e enérgicos que sempre exibem um vasto conhecimento da riqueza musical que comportamos neste nosso imenso território e da infinidade de ritmos que pululam pelo globo, Mauricio Fleury se estabeleceu como um dos seletores mais habilidosos em atingir aquele ponto de equilíbrio na construção de sets que conciliam o lúdico ao pedagógico com excelência. Imbuído de um espírito aventureiro que se vale de uma invejável erudição, ele consegue criar narrativas que instigam nossas mentes e manipulam nossos corpos com impressionante facilidade.

E tudo isso ele faz em seu tempo livre, já que sua vida artística é bastante agitada por conta de seu trabalho como parte integrante de uma das bandas mais autênticas e consistentes do cenário independente nacional contemporâneo, o Bixiga 70. Entre uma gig e outra de uma frenética agenda, contando aqui o fenomenal True Festival que ocorre neste sábado em Floripa, ele fala conosco sobre como faz o que faz e nos regala um pedacinho intenso desse vibrante universo musical no qual vive.

Um crescente público já conhece o trabalho do Bixiga 70 e sua sonoridade bem particular. Como funciona a relação entre ele e sua seleção e vice-versa? Como eles se alimentam mutuamente?
Fiz uma seleção instrumental justamente para mostrar que o que determina o nosso som é muito mais a formação - e a característica maior de não ter letras, não ter um discurso definido - do que um estilo específico, nós temos uma sonoridade particular e não uma fórmula ou um gênero definidos previamente, acho que essa busca da banda tem tudo a ver com a minha busca pessoal de sonoridades diferentes que se aproximam, às vezes bem arbitrariamente, para criar novos significados. Uma coisa alimenta a outra de forma que vamos sempre ampliando os horizontes.

No que tange às agendas artística simultâneas, rola manter um equilíbrio ou tudo é mais caótico do que o desejado quando se faz parte de um grupo enorme com prioridades inevitavelmente dispersas entre todos os membros? Você toca como DJ menos do que gostaria ou isso ainda faz como um hobby e quando realmente dá?
Eu acho que toco como DJ menos do que eu gostaria, antes do Bixiga 70 existir, e até durante os primeiros anos, fui DJ residente de diferentes bares e casas de São Paulo e tocava uma vez por semana no mínimo. Hoje em dia, trabalho mais como músico, discoteco uma vez por mês ou duas, às vezes menos, mas convivo diariamente com essa cultura e com a busca da minha companheira, a DJ Giu Nunez, com quem aprendo e troco muito e que tem feito um caminho muito legal entre a dita dance music e coisas mais tradicionais do Brasil e de fora, é um aprendizado constante. Não considero um hobby, pra mim é mais como uma segunda profissão, apesar de não ser mais tão constante. De vez quando consigo tocar em alguma viagem também, quando sobra um dia. Mas tenho muitas datas livres, quem quiser me chamar pra discotecar, é só dar o toque!

E quanto ao digging? Imagino que sempre deva sobrar um tempo e ntre um show e outro, especialmente quando viaja com a banda. Mesmo assim, rola um planjemanto prévio ou você chega e explora os picos legais junto aos locais?
Com certeza! Em todos os lugares onde a gente passa, eu tento ir a um sebo ou loja de discos, ainda é a minha forma favorita de pesquisar música e me sinto muito feliz de trazer um pouco da história de cada lugar que eu conheço para a minha coleção ou para as pistas do mundão. Temos uma vitrolinha portátil que eu levo pros sebos pra poder selecionar o que levar. O fluxo dos discos e dessa informação mágica ao redor do mundo é um dos meus interesses principais, acho que isso se reflete no nosso trabalho com a banda. Dependendo do lugar, rola um planejamento prévio, não é todo lugar que dá pra achar ou que vão existir locais na disposição de dar um rolê e mostrar as coisas, mas sempre rola. Estive há pouco tempo em BH e Porto Alegre e achei coisas incríveis em sebos bem pequenos e baratos graças aos meus amigos locais, sempre tem coisa boa, em São Paulo ou em qualquer lugar do mundo, escavando, aparece.

Este mix aqui tem algum ensejo por trás ou desejo pela frente? Ele é produto de um projeto ou mais fruto de um ímpeto?
Nesta mix eu misturo jazz, psicodelia e alguns sons orientais, fruto de viagens pra India e Turquia, ao mesmo tempo, a segunda música da mix ("Great Expectations" do Miles Davis) é uma música que me acompanha desde os 15 anos, quando descobri o disco Big Fun na coleção do meu pai, o que foi determinante na minha paixão por discos e sonoridades inusitadas, nunca imaginei que pudesse existir um som assim, quando pus na vitrola, enlouqueci. A mixtape é um pouco sobre isso, sobre se manter deslumbrado com o sons, sejam de discos baratos que você encontra por acaso, discos que são jóias de família ou coisas que eu acabo buscando nos cantos do mundo pra onde vou com a música. Como diz um DJ amigo meu: "é uma viagem no tapete mágico".

Agora voltando nossos olhos ao horizonte, além de Floripa e dessa gig no True Festival, o que o aguarda dentro e fora do Bixiga 70 nesses próximos meses?
Além do True Festival, neste mesmo fim-de-semana, tocaremos em Curitiba e Porto Alegre. Semana que vem (dia 11) vamos tocar pela primeira vez no Maranhão, em Imperatriz, dentro do Festival BR135 Instrumental. Até o fim do ano deve sair uma colaboração nossa com uma cantora muito legal da qual somos fãs e no mais, shows por aqui e onde mais pintar. Alguns de nós vamos para a Europa com o João Donato em novembro fazer o show do disco Donato Elétrico que gravamos com ele em 2015, então fica a dica pra quem estiver em Lisboa, Londres, Berlim ou Paris. O Bixiga 70 chega inteiro na Europa no ano que vem, provavelmente no verão.

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