My Girlfriend

Por Francisco Cornejo

Logo após retornarem de uma produtiva estadia berlinense, o duo formado pelo pequeno prodígio Benjamin Sallum e o profícuo Pedro Zopelar decidiu gravar um set com o frescor de todas aquelas emoções e informações ainda pulsando por seus corpos e mentes. E, considerando que tudo em que essa dupla decide investir suas energias criativas sempre vem traz consigo uma bela mistura de vigor e humor, o que se pode esperar deste episódio do db series é algo tão pautado numa densa pesquisa musical quanto movido por uma intensa força jovial.

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Benja estava em sua temporada acadêmica na RBMA que então a cidade sediava, enquanto Zop fazia o que ele já é bem conhecido por fazer eximiamente por aquela redondezas e no mix, segundo este, “nota-se que não estávamos mais aguentando ouvir os Techno de lá (risos), já que tem até Chick Corea no meio aí, assim como várias coisas nossas.”

Algo típico para um par de mentes tão inquietas que encontram em especificidades musicais mais prisões que refúgios e resulta em algo que aproveita bem a oportunidade dada por esta série e “pode ser curtido a qualquer hora, porque é um mix sobre músicas que gostamos! Existe uma vibe romântica e mais diurna acredito, mas acho difícil dizer isso, pois cada um gosta de ouvir certo tipo de som em momentos diferentes. Eu, por exemplo, adoraria ouvir todas essas faixas numa pista! Mas, definitivamente não é um exercício de gênero algum além da nossa vontade de misturar discos que gostamos muito, em casa, sem nenhuma plateia ou reações ao que estamos fazendo.”

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Quando inquiridos sobre como anda o projeto, após tantas boas notícias como o EP pelo magnífico selo Apron prestes a ser lançado, a resposta é despojada e direta bem à maneira de tudo que criam: “continua igual, só não estamos mais fazendo live (risos)”. Claro que isso tem uma contrapartida fabulosa no fato de que sua produtividade apenas aumentou, já que o tempo juntos foi otimizado. “Estamos dedicando nossos encontros sempre a produção e acumulando várias tracks, então haverá vários lançamentos no próximos anos, mas nada além disso. O que queremos mesmo é fazer discos e discotecar, além de seguir com o projeto de forma despretensiosa, porque o My Girlfriend é projeto paralelo. Esse EP é o primeiro fruto da nossa relação com o Funkineven quando que nos conhecemos na ODD em janeiro de 2017. Desde então começamos a mandar tracks e ele tem tocado quase todo Apron Show na rádio NTS. Ainda tem mais coisa por vir.”

É bastante sintomático que um músico de formação diga isso em relação a seu ofício e não é nenhum segredo que Zopelar encontrou nos formatos musicais da eletrônica uma linguagem expressiva dileta, assim como nos modos de fazer artístico que ela encerra, especialmente o que ensejou este mix: “DJing é incrível para quem está nessa vibe de produzir discos pq eh um ótimo momento pra testar suas músicas num contexto que estão também as faixas que estamos gostando e curtindo no momento! Muitos pensam que o processo de live é algo profícuo mas ensaiar e se dedicar a performances, desmontar o estúdio para tocar, etc... são fatores que na verdade dificultam o workflow da produção desses discos, onde não existe uma limitação do equipamento que você pode levar ou espaço para suas tralhas e sim a imaginação!”

Sua preferência pela perenidade daquilo que é feito no conforto do estúdio é algo já recorrente em suas falas e escolhas recentes e os motivos são os mais coerentes possíveis: “o que pode acontecer no estúdio é sempre um mistério e o resultado é sempre algo eterno, um fonograma, uma ideia musical que futuramente pode ser um fragmento de um disco. Então para nos manter no nosso objetivo despretensioso de continuar fazendo discos, precisamos manter sempre o workflow mais sincero com a nossa proposta... e desde que começamos a dedicar nosso encontro mais à escuta, à troca de sons e imaginação/construção de músicas, temos ficado mais satisfeitos com o trabalho. E talvez a consequência dessas escolhas no passado já estejam ressoando como vc disse como algo que mudou no projeto. Mas, na verdade, simplesmente achamos o nosso lugar para o My Girlfriend, ainda que nossa pretensão com ele não tenha aumentado ou diminuído, apenas encontrou o seu caminho! Ou um novo caminho”.

Todas ambições modestas, mas essenciais para estes dois talentos tão singulares na cena nossa cena atual que agora vêm colhendo os frutos de sua despretensão e comprometimento, num momento auspicioso do qual este mix é um belo documento, ainda que não definitivo: “nossa inspiração vem desde o Neosoul, Clube da Esquina até gêneros mais comuns aos DJs, como House e Funk.”

Afinal, quando pensamos que estes dois estão num lugar, eles se movem para outro e assim permanecem de modo constante, mudando um pouquinho o cenário ao redor e nossas vidas no processo. Sempre para melhor.