Pink Monkey Flower

Por Flávio Ghidalevich

O duo Pink Monkey Flower, projeto de Live PA dos produtores Marcos Morcerf e Pejota Fernandes, gravou um live exclusivo durante sua apresentação no Club Jerome em SP. Para comemorar 10 anos do projeto, eles se reagruparam e produzem um novo repertório. O som da dupla sobrepõe textura e melodias, num estilo próprio e incomparável, os DJs fazem em suas produções um hibridismo experimental fundamentado na Disco, Acid House, Breakbeats, Rock, com texturas e timbre sonoros retros e futuristas. Com influências da história da música eletrônica, soul, psicodelismo e funk. PMF está lançando um álbum inédito comemorativo e tem programado 3 EPs com remixes de consagrados produtores. Eles também lançaram um site. Nesta entrevista, eles contam novidades e compartilham conhecimentos.

Como e quando vocês começaram a trabalhar com música? Sabemos que vocês possuem carreiras respeitadas fora do projeto. Falem um pouco a respeito disso...
Pejota - Decidi trabalhar com música depois de terminar meu ensino superior. Sabia que se fizesse ao mesmo tempo não daria certo. 
Ser DJ (que na época era o que eu queria) exigia dedicação. Pra entrar no meio de tantos grandes DJs que admirava precisaria ser realmente bom. Fui frequentando as festas, levando Cd mixado pros DJs e pouco depois fui convidado pra uma primeira apresentação. Quem me abriu as portas foi o Acácio. Devo muito a ele, aliás.
Morcerf - Coleciono discos e adoro músicas desde criança, adolescente gravava K7 mix para primos e amigos, e depois nas minhas lojas Universo em Desfile e Fora de Moda , cuidava das trilhas sonoras que rolavam lá. Trabalhar como músico foi a opção que investi, após encerrar a fase estilista/proprietário de lojas moda, pois frequentava muitas festas e as fazia também, visto que ambas lojas tinham grande penetração na cena musical urbana. Foram 15 anos na moda e mais 15 anos DJing, e agora após quase 10 anos aposentado passeando pelo mundo, Pejota me convidou me para voltarmos e ate fazer apresentação na Festa Dando. Topei e não parei mais. 

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Como e por que vocês se juntaram e criaram o Pink Monkey Flower? Quando se iniciou a produção conjunta?
Pejota - Em 2005 quando Marcos fazia a festa Onda Nova no PIX, eu "batia cartão". Ele sempre foi um DJ de vanguarda. Todo mundo torcia o nariz quando ele chegava com algo novo, criticava, mas 1 ano depois aquilo virava hit, só que pra ele já era velho... Eu pensava como os outros, mas aquele som estranho me pegava. Aprendi com ele que não basta ser estranho, precisa ser bom e o que ele tocava era ótimo... tinha profundidade, claro, porém não achava que tinha relação com as coisas que eu tocava. Imaturidade, medo e caretice minha. Naquele impasse de se deixar levar e mergulhar ou ficar acomodado eu resolvi arriscar. Um dia esperei ele sair, me apresentei, entreguei um CD com algumas músicas que eu tinha feito inspirado na festa. Marcos me deu atenção e levou o CD, mas eu achava sinceramente que não haveria retorno. Dias depois ele me ligou, conversamos e marcamos. Dali iniciamos um trabalho de experimentação e pouco tempo depois lançamos a primeira música que se chama "Liquid Monkey". Saiu num CD da Colcci.... e foi assim.
Morcerf - Ambos éramos DJ. Pessoalmente, não achava q tinha jeito para produzir, achava os programas muito “frios”. Então o Pejota me apresentou o FL Studio, que era mais lúdico e eu poderia me divertir com VSTs de instrumentos clássicos de tantas eras musicais e estilos que vivi. Como estou com 62 anos, sou de uma geração muitíssimo privilegiada em cultura e vivência musical. Viemos pelos anos afora com as melhores músicas das décadas de 60, 70, 80, 90... e quando falo vivemos, foi visceralmente, pois a música estava entranhada nas minhas experiências de vida e emocionais. Começamos a produzir músicas e apresentávamos nas festas onde eu era residente e Pejota convidado regular: Freak Chic, Avesso, Domingas,... 

Qual a ideia por trás do nome?
Pejota - Pink Monkey Flower é uma flor (óbvio, kkkk) que é muito utilizada para se fazer florais e sua função é desinibir as pessoas. Pra mim, o nosso processo de trabalho dá um resultado muito parecido. Fora isso acho que o nome soa harmonioso.
Morcerf - Adoro escolher nomes. Pink Monkey Flower é gay, freak, psicodélico, divertido e terapêutico, já que remete a um floral californiano para inibição. É, as vezes, eu sou tímido, inibido, e me exibir mostrando meu trabalho é a ferramenta para me expressar . 

E o processo criativo, como funciona a criação de músicas e identidade, como cada um age e colabora dentro do projeto? Afinal, fazer música, se renovar, e sobreviver 10 anos na vida noturna não é uma tarefa nenhum pouco fácil. 
Pejota - Marcos deu uma pausa com a noite. Não toca mais como DJ. O negócio dele hoje é realmente fazer música. Nós tivemos uma primeira fase que durou uns três anos. Fizemos dois singles em vinil e digital que foram super bem aceitos, apresentações e outros pequenos trabalhos entre 2006 e 2008. Demos uma pausa e no final de 2016 nos aproximamos novamente e a coisa voltou a rolar.
O processo é o mesmo desde o inicio. Os dois colocam a mão na massa sem muito critério de o que cada um vai fazer. Marcos hoje é quem mais trabalha. A maioria das frases melódicas é dele, timbres de synths, loucuras de efeitos e filtros. Eu gosto muito dos elementos de percussão, das batidas e baixos, da cozinha e da sequência, automações e estrutura, mas isso não quer dizer que é sempre assim. Têm vezes (e muitas) que ele faz tudo e eu só dou um toque, acerto uma coisa ali e aqui. Marcos é inquieto. Mergulha fundo mesmo! Aprendo muito com ele. O que ele faz é realmente de dentro pra fora. Visceral. Pra mim é uma aula de autenticidade e sinceridade com a criação. Percebe-se no resultado. Quem acompanha sua história desde que ele era DJ saca logo tudo nas músicas. 
Morcerf - É uma verdadeira parceria, tive duas parcerias realmente produtivas e enriquecedoras na vida: com Antonio Salomão (saudades) na Fora de Moda e com o Pejota no PMF. Não somos competitivos, nos complementamos, há respeito mútuo, e a salvação é que o Pejota tem paciência para meu espírito ariano (risos). Um ajuda a elevar as qualidades e amenizar os defeitos do outro. 

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Contem um pouco sobre o Live, como vocês selecionam as faixas que vão tocar numa apresentação? Quantas vezes por semana entram no estúdio? E qual é a faixa que nunca pode faltar, que sempre dá certo quando vocês tocam?
Pejota - Duas vezes por semana é a meta, mas ultimamente está difícil! kkkk Fazemos muita coisa. Só pra ter uma ideia, da primeira fase temos umas 50 músicas ao todo e dessa volta agora mais umas 100 prontas e outras muitas em andamento. Não tem receita mágica. Acontece isso porque o nosso processo de trabalhar não tem minúcia. "Vomitamos" tudo. Trabalhamos de uma forma que possibilita transformar o que temos em mente rapidinho pra não perder a inspiração criativa e depois de feito vamos dando o refino até achar que ficou pronta. Sobre o live depende muito. Analisamos o todo e depois fazemos uma seleção harmonizando com o público, a festa e com a mensagem que queremos passar. Tem algumas músicas que repetimos, mas como sempre temos coisa nova, acabamos renovando muito a cada apresentação.
Morcerf - Eu e Pejota nos reunimos 2 vezes por semana, pois o Pejota trabalha muito, já que além de ótimo fotógrafo, administrar o selo Rainbow Socks, trabalha feericamente com informática. Como estou aposentado, posso fazer esboços a qualquer hora que estou inspirado para desenvolvermos nas sessões conjuntas. Então temos muitas, muitas músicas prontas, de vários subestilos, para um set variado que pode ser de 1 a 3 horas, dependendo do evento (e cachê, claro, rs). Como fomos DJs, temos a variedade para compor sets com variados climas, que adaptamos para cada tipo de evento, onde adicionamos intervenções e interações musicais ao vivo. 

Em quais projetos futuros vocês estão trabalhando e gostariam de contar um pouco pra gente?
Pejota - Muuuita coisa. Trabalhar com o Marcos é assim. Ele é ligado no 220V! Temos coisas prontas programadas pra lançar até o fim do ano. Muita gente legal nos remixando e muitas ideias para as futuras apresentações. Dias atrás renovamos nossos canais, criamos um website, refinamos o Soundcloud, contratamos um serviço de distribuição dos nossos discos e temos várias coisas em andamento para mostrar. Material não falta!   
Morcerf - Meu foco é o Pink Monkey Flower, que usualmente usa 125 MPMs nas músicas. Mas com o tempo ocioso, acabo fazendo experiências que extrapolam o PMF e recentemente resolvi agregar no projeto solo "Stupid Flair" já com 2 EPs programados, mas sem qualquer pretensão de apresentação em Live. Do PMF temos engatilhado alguns EPs e um novo álbum ate o final do ano. Na verdade, estamos aguardando que os produtores convidados para remixar nossas músicas encontrem um tempinho para finalizá-las (risos). Mas também somos tipo "multitudo": fazemos o blog e site, realizamos o network, gostamos de fazer as próprias capas e projetos gráficos, tudo DIY, e cada EP procura agregar um conceito entre as faixas e trabalho gráfico distintos. Usamos fotos do Instagram e as fotos em P&B do Pejota.
E acabamos de lançar o EP Brejeiro - com brasilidades excêntricas, valorizando a nossa cultura na Juno. 

Vi que a sonoridade de vocês passeia por vários subgêneros e ritmos, qual a ligação de vocês com a música em geral, o que é a música na vida de cada um?   
Pejota - Não viveria sem música. A vida fica sem sentido. Tudo na minha vida tem uma trilha sonora. Trabalhar com o Marcos me fez abrir mais a mente para outros caminhos dentro da música. Eu costumo falar que o PMF não tem uma classificação. Me surpreendo com o resultado sempre e muitas vezes eu não consigo definir e nem classificar o nosso trabalho. Isso é legal. Acredito que estamos fazendo algo diferente. A ideia é essa.
Morcerf - Eu ouvi de tudo na vida e aprendi a selecionar, afinal quem trabalhou com moda e DJing, sabe que edição é tudo. Assim misturo o que achar conveniente ao meu gosto, mixando do Pop ao Experimental. Mas tenho meu forte passado no Rock, que expressava nos sets híbridos de House, Breakbeats, eletrohouse, Techhouse, com climas variados e instigando a pista. O PMF segue esta linha provocativa. Musica é emoção, inspiração e ritmo para o corpo e o cérebro. Tudo é uma trilha para mim, por isto queremos muito fazer trabalhos com trilhas, seja para filmes artísticos, autorais ou promocionais, eventos, peça teatrais, performance.
Muitas vezes estou assistindo um filme, paro, venho inspirado pro computador iniciar um esboço sonoro.
Mas é na apresentação, nos Live Acts do Pink Monkey Flower que realmente podemos usufruir na interação com o público, o resultado de nosso trabalho e emocionarmos juntos. 

Por quais selos vocês já lançaram? Como tem sido a escolha das gravadoras e produtores que vocês fazem parcerias, há algum label que vocês possuem um relacionamento mais próximo? 
Pejota - Em 2007 lançamos o primeiro single, "Rodando a Carmen", pelo selo Memorabilia do Mondino. Depois Fizemos mais um por um selo que o Marcos fez na época chamado Mamute Discos Brasil. Nessa nova fase estamos lançando pelo meu selo, o Rainbow Socks por enquanto. Estou muito feliz por isso, não somente por ser um projeto que eu faço parte, mas porque o trabalho tem autenticidade. Produzindo sozinho devo ter dois ou três trabalhos no Rainbow Socks. Nunca foi meu objetivo usar o selo para lançar músicas minhas. Achei legal agora fazer as coisas do PMF pelo RS simplesmente porque, como disse antes, são trabalhos autênticos e que tenho o maior orgulho de ter no catálogo do selo.
Sobre a escolha de quem vai remixar isso é definido pelo conjunto do disco. Tentamos alinhar a temática do disco com algum produtor que tenha relação com as músicas.

Quais outros artistas interessantes vocês têm ouvido e indicam? 
Pejota - Muitos, mas um que, com certeza inspira ambos é o King Krule. Quem traz mais a influência da música de pista atual sou eu e o Marcos é mais do Rock, mas ele, com certeza, ouve novidades variadas muito mais que eu. Concentro minha pesquisa mais para o trabalho de DJ, mas acaba servindo para o PMF também.
Morcerf - Bom, quando era DJ residente da Freak Chic com Pareto e Ratier, eu aplicava minhas pesquisas para influenciar no line up de DJs e produtores convidados internacionais. Mas sendo muito franca (risos), eu não pesquiso mais musica eletrônica. Parar de tocar me "repossibilitou" ouvir novamente muitos estilos além das pesquisa profissional para pistas. Nesta década, destaco Connan Mockasin, Ariel Pink, Micachu & The Shapes, The Cleaners From Venus, King Krule. Metronomy, alguns já existiam e estavam eclipsados pela minha pesquisa estritamente para pistas, que sem dúvida influenciam o tipo de mixagem e escolha de timbres menos agressivos que os usuais nas pistas de dança da noite. Nosso experimentalismo é anárquico e instintivo, criamos no nosso caos de todas as influências musicais e de tipos humanos da noite.  

Qual é a visão de vocês sobre o posicionamento político-social de artistas?
Pejota - É essencial! o PMF é assim. Nossa primeira apresentação da volta foi na festa Dando, que hoje sou residente e abrimos com uma intro de protesto chamada Comunistas. Quem estava lá ouviu e viu a performance!
Sem sair do tema, a Dando é uma festa que tem essa característica de se posicionar também, inclusive um dos principais, se não o principal motivo de eu ter topado em trabalhar com eles com o maior orgulho foi por conta disso. 
Como DJs, produtores, etc... acho que temos essa missão e ir além do entreter gente. Precisamos mostrar o que acreditamos, de fato.
Morcerf - Eu sou de esquerda desde que vim de Maceió para São Paulo nos anos 70, quando exerci forte atividade politica contra a ditadura no Movimento Estudantil e participei do início da formação do PT, sem nunca ter me filiado ao mesmo. Só o fiz este ano. Sou da escola que achava que música, estilo , humanismo, política, se agregavam e levavam a evolução. Infelizmente a barbárie da crise capitalista fragmentou tudo, a democratização do acesso a informação ampliou todas as contradições e amplificou também o mau gosto e comportamentos bizarros, como roqueiros fascistas, etc..., a ignorância e falta de conhecimento cientifico, pois é manipulada por este capital mentiroso e podre (no sentido não produtivo). Mas vejo alguns artistas romperem a barreira egóica do network e se posicionarem, e ainda alguns poucos ate exercerem ativismo e vinculá-lo  ao trabalho criativo. Eu dirijo meu perfil no Facebook prioritariamente ao ativismo, mas tem muita gente agregada devido a minha atividade musical, moda, etc...  entretanto deleto sem dó os reacionários. Como falei antes, selecionar é tudo.
Como não saio mais a noite, exceto para as apresentações, realmente fico muito tempo na rede dos computadores aqui em São Paulo e na minha rede de balançar na casa na praia de Alagoas. 
Para mim, as lutas identitárias são fundamentais, mas só ganham um sentido real  se agregadas a luta mais ampla por uma sociedade mais justa, socialista e democrática. 

 Pink Monkey Flower em entrevista para Flávio Ghidavelich

Pink Monkey Flower em entrevista para Flávio Ghidavelich