Rafael Cancian

Por Francisco Cornejo

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A energia de Rafael Cancian é tão contagiante quanto constante, seja quando trava uma conversa despojada e franca como esta ou quando mistura faixas de alto teor inflamável em pistas de elevado poder de fricção dançante. Ela emana dessa personalidade intensa que nos deu esse fabuloso mix recheado de iguarias fresquinhas e esta entrevista reveladora na qual ele não se furta de dar a real sobre o que faz, fez e quer fazer.

Tudo se soma a uma figura carismática cuja perícia como DJ e excelência como produtor já se tornaram parte das lendas da vida noturna urbana da capital paulista que o adotou. Ele chegou para ficar e não mostra sinal algum de estar satisfeito.

Lembro que você me corrigiu certa vez quando presumi que fosse carioca, muito por conta de um sotaque que pensei ter detectado. Você me disse que, na real, vinha do interior de São Paulo. Qual o itinerário dessa essa trajetória que acabou passando por tantas partes?
Não é de hoje que eu tenho rodinha nos pés. Sou da região noroeste do estado de SP e nasci em Birigui. Morei com minha família em Araçatuba, onde ingressei na música aos 16 anos. Embora todo meu começo tenha sido na cidade, eu sempre soube que meu lugar não era lá, eu precisava sair de casa para poder fazer o que eu gostava. Fiquei até os meus 20/21 anos ali, tinha a intenção de trabalhar mais com a música, mas dando a desculpa de cursar a universidade.

Passei no vestibular e fui para Cuiabá-MT, onde vivi por quase 5 anos. Foi um tempo essencial para eu me estruturar musicalmente, estudar, produzir, fazer contatos. De lá me mudei para São Paulo capital, onde resido há 1 ano e meio.

E, em se tratando desta cidade que conhecemos tão bem, para o melhor e para o pior, foi difícil se adaptar e encontrar seu lugar numa cena que é animada por uma disputa tão acirrada?
Olha, todas minhas mudanças foram cercadas de perrengues, financeiros e etc. Eu já tinha alguns contatos por aqui, mas não tinha nada fixo, não sabia o que eu faria da minha vida para poder me sustentar 100% com a música numa cidade tão disputada. Por sorte, eu cheguei aqui em um momento que várias coisas estavam caminhando bem. Várias festas e festivais legais acontecendo.

Eu cheguei aqui como um filho sem pai e sem lar. Estava me sentindo um cachorro de rua perambulando pela cidade em busca de novas oportunidades. Muitas vezes fui para algumas festas só com o dinheiro do metrô no bolso, mas era importante eu ir e fazer contatos por aqui. Um dos primeiros a me acolher foi o Guga da Mareh que já era um amigo e contratante importante me chamou para várias coisas, da qual até hoje faço parte e reforçamos mais o trabalho.

Atualmente aquela trajetória desemboca em alguns lugares fantásticos como a About Disco, a Mareh e tantas outras pistas bem tórridas. Quantas no total têm seu envolvimento direto como residente ou curador? Quantas outras mais se somaram entre tantas turnês que tenham sido marcantes para você
About Disco foi um sonho que eu vi sendo realizado desde o embrião até chegar agora. Comecei ela para criar um selo com focando nas sonoridades da Disco, tendo comigo um total de R$ 0,00 (hahaha) para investir. Já tinha as ideias na cabeça, um amigo de faculdade criou o logo e depois todo o resto fui eu mesmo quem bolou: identidade visual e tudo mais.

Nasceu do nada e hoje sites como o Traxsource e Juno já avalizaram pelo trabalho que fizemos nos últimos anos. Além, é claro do suporte de vários grandes artistas da cena. A proposta do selo era dar voz ativa para muitos artistas talentosos que não tinha oportunidade de lançar por grandes gravadoras e, assim, nomes que hoje circulam por aí poucos sabem que foi a About Disco que os lançou pela primeira vez.

Com isso eu passei a produzir uma noite anual do selo pelo mundo em parceria com os artistas locais. Já passamos por São Paulo, Berlin, Tulum e agora não sei qual será o próximo destino, EUA ou Ásia seriam interessantes. Atualmente só a About Disco que tem 100% da minha curadoria.

Sobre as pistas, já peguei algumas bem tórridas por lugares que poucos passaram. Se for para dar uma uma pequena lista das mais inesquecíveis, posso citar o The Dolphin Tavern na Filadélfia (2016), o Virgin Hotel em Chicago (2017), Festival Marisco em São Paulo (2018), o Marble Bar em Detroit (2017), Gitano em Tulum (2017), o Esquivel em Tijuana (2018), o Rollover Milano em Milão (2016), o Sonido Fabricato no Salon Amador de Medellin (2017)...

Agora, falando desse mix. Ele tem coisas especiais, não? Tem coisa nova que pertence a um trabalho mais amplo que está prestes a ser lançado. Qual é esse projeto afinal? Dá para revelar? Ao menos um tiquinho?
Posso revelar todo já. Em 2018 eu completaria 10 anos como DJ, abrindo alguns arquivos inacabados percebi que havia 9 tracks de diferentes gêneros, entre Disco, House e até mesmo um Techno ali no meio e vi que seria interessante a ideia de um formarem um álbum. Ali havia tudo o que eu havia tocado, pesquisado, trabalhado nos últimos anos. Como bom libriano, fiquei muito inseguro pensando se isso não seria muita audácia para um "novato". Por fim decidi lançar, porém eu não queria lançar pela About Disco e não encontrei nenhum selo com as características do álbum disposto a lançar isso. Eu queria muito prensar também, mas estava fora de cogitação pelo alto valor. Não tinha e nem tenho esse capital de investimento. Decidi fazer tudo por conta própria e lançar ele digital mesmo, inclusive o acesso aumentaria muito, porque muitos como eu não teria a grana para comprar o disco ou então talvez não teria acesso pela dificuldade de distância para eu poder enviar.

João Godinho, um amigo artista português fez a capa, Fabro, meu engenheiro de confiança, fez a masterização e assim ficou pronto o projeto para ser lançado por uma nova label criada por mim, da qual leva o mesmo nome do álbum, No Rules. Além disso o mix especial que gravei para vocês conta somente com produções minhas lançadas pela About Disco, assim como o Rocksteady Disco de Detroit e uma ainda inédita pela Razor N Tape de NYC, que sairá após o meio de 2019.

Fora essas infos privilegiadas, ele tem algum eixo ou fio condutor que o torna mais compatível com certas hora do dia ou momentos da vida? Uma ideia central ou algo assim?
Essa é uma obra com uma proposta muito simples, já que criei essas faixas para serem ferramentas que DJs usem nas pistas. Muitos produtores e DJs que fizeram álbuns assim me inspiraram, tipo Theo Parrish, Terrence Parker, Moodymann, Kerri Chandler, Metro Area, Eddie C...

Talvez pela grande influência, amor pela cidade, Detroit esteve o tempo todo na minha cabeça e sei também que sou um dos poucos brasileiros que já pisaram lá por causa da música. Em 2017 eu fiz uma viagem de carro na tour nos EUA, entre Detroit e Chicago em que toquei nas duas cidades no mesmo final de semana. Durante a estruturação do álbum, isso era a coisa mais marcante na minha cabeça. O modo como foi produzido no meu estúdio (meu quarto) se eu contar ninguém vai acreditar que as ideias saíram todas daqui e nessas condições (risos).

E com tudo isso acontecendo junto a tanta coisa que já rolou e nos contou até aqui, o que sobra do que está para acontecer para nos revelar?
Bom, às novidades são meu álbum já está disponível para quem quiser ouvir, comprar, baixar, o que fora. Na parte de produção ainda teremos mais surpresas, uma delas é um lançamento para depois do meio do ano pela Razor N Tape que mencionei acima. Vai ser um vinil só como edits exclusivos, algumas brasilidades inclusas também.

Em 2019 me tornei oficialmente o residente Mareh Music e nos últimos anos passei por quase todas as festas principais do circuito anual do projeto, sendo que agora começarei a residência tocando todos os dias das Boat Parties do Carnaval no Rio de Janeiro. Além de tudo isso, as viagens continuarão em passos largos e desbravando novos horizontes para 2019.