Roland Leesker

Por Marllon Gauche

Começamos esse texto com uma reflexão, pense aí: quantos DJs que você acompanha já somam uma carreira de 30 anos e estão na ativa até hoje? Provavelmente não muitos, afinal, essa é uma marca para verdadeiros veteranos de guerra, que participaram das transformações da dance music e até hoje colaboram para o fortalecimento do cenário eletrônico.

Um personagem que se encaixa nessa história é Roland Leesker, DJ, produtor e um dos nomes à frente da renomada gravadora alemã Get Physical, que assinou o segundo volume da compilação Cocada, projeto que ganhou vida no ano passado com a ajuda de Leo Janeiro. Aproveitando este lançamento, batemos um papo bem descontraído com Roland, que reservou alguns minutos de seu agitada rotina para conversar com a gente de forma exclusiva.

Olá, Roland! É um prazer enorme falar com você. 30 anos de carreira… São poucos nomes que chegam neste marco histórico, você sente na prática que passou tanto tempo assim?
Olá, é um prazer também! Tenho a sensação de que isso é apenas o começo. Eu não aceitei completamente o artista em mim por muito tempo. Só agora me sinto confiante o suficiente para entreter as pessoas com a música que me faz sentir bem também, então eu ainda me sinto muito um novato, como se fosse totalmente o começo.

Atualmente as coisas mudaram muito, a forma como consumimos música, o estilo de mixagem, as novas tecnologias… Qual é o lado mais positivo de toda essa mudança na sua opinião? E o que existia antigamente que hoje não se tem mais?
Mudança é a única coisa constante na vida. Tento olhar para tudo que acontece positivamente. Acho extraordinariamente incrível que, hoje em dia, quase todas as pessoas no planeta podem criar música e compartilhar com seus amigos do mundo inteiro com zero custo. Já o que existia antes era uma pista de dança sem celulares.

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Ao longo de toda sua trajetória, quais foram aquelas parcerias históricas que você nunca esquece? Quais momentos mais te marcaram até aqui?
Quando eu tinha 18 anos, eu era Light Jockey da Ata & Heiko M/S/O no XS Club em Frankfurt. A primeira vez que senti uma linha de baixo de house, soube que iria acompanhar para sempre. Heiko me levou embaixo de suas asas, oferecendo meu primeiro trabalho em tempo integral, na Delirium Records e é onde eu realmente me preparei para tudo que aconteceu depois. Heiko já está no céu, mas nunca vou esquecer do que ele fez por mim. Espero que agora eu possa ajudar pessoas mais novas interessadas em trabalhar com música, de forma parecida.

A Get Physical é reconhecida como um dos selos mundiais mais importantes e influentes da música eletrônica na atualidade. Ao estar à frente da gravadora, quais foram os principais ensinamentos adquiridos para sua jornada profissional?
É um trabalho duro e mal pago. Então, você realmente precisa ser um completo maníaco para fazer o que estamos fazendo por tanto tempo. Eu não acho que já tenha aprendido tudo o que você poderia saber sobre business, sendo assim, talvez a principal lição seja: siga seu coração, nunca pare de aprender e tenha a mente aberta.

Um dos projetos mais legais que acompanhamos atualmente é o Cocada, projeto apoiado desde o começo por você e pela Get Physical, não é mesmo? O que você enxergou de mais especial quando a ideia surgiu? O que te fez acreditar que essa iniciativa daria tão certo como está dando agora?
Fico muito feliz em ver tantos artistas incríveis criando seu próprio sabor de Cocada agora. Acredito que um dos principais fatores da energia positiva do projeto é que estamos unificando todos sob o mesmo teto. O dia em que meu time em Berlim criou a arte do Cocada Vol 1, talvez tenha sido, o ponto de virada, pois eles instintivamente entenderam o que eu estava sentindo e transformaram em um ótimo produto, embora eles nunca estiveram no Brasil antes. E claro, ter Leo Janeiro no time como nosso principal representante no Brasil me faz acreditar que nós podemos e seremos bem-sucedidos.

E a ideia é expandir ainda mais o Cocada, certo? Ele vai até mesmo se transformar num sub label da Get Physical? Como isso funcionará exatamente?

Estamos trabalhando em nosso sonho de dar o doce de Cocada a todos que amam música eletrônica da América Latina. O próximo passo é, de fato, o lançamento do nosso selo Cocada Music, com lançamentos de Pauza, Ossaim e Bruce Leroys, com um remix de Ricardo Villalobos — vocês sabiam que o tio de Ricardo é um dos ex-prefeitos do Rio de Janeiro?!

Mas não apenas a música deve refletir a criatividade latino-americana, também gostaríamos de expandir essa ideia para a identidade visual e demais questões criativas. Para todos os outros assuntos, nosso time em Berlim estará presente para ajudar 24 horas por dia e 7 dias por semana, mas na perspectiva de longo prazo, Cocada Music deve ser totalmente administrada dentro e fora do Brasil.

Vamos encerrando por aqui, mas antes gostaríamos de saber: o que esse set gravado por você tem de mais especial? Qual a principal ideia por trás dele? É para ouvir em algum determinado momento do dia ou não exatamente? Muito obrigado pelo seu tempo e pelo bate papo!

Há alguns clássicos da Get Physical, algumas faixas minhas exclusivas e o remix de Ricardo Villalobos para "Liberdade" de Bruce Leroys, que ainda não foi lançado, assim como o novo remix de Tube & Berger para "Heater" de Samim. Esse mix deve servir de esquenta para nossa apresentação no Rock in Rio, dia 27 de setembro no New Dance Order. Até logo!

Aproveite o embalo e ouça na íntegra a segunda compilação do Cocada.