Tati Pimont

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Por Francisco Cornejo
Foto Leandro Godoi

Munida de uma vontade inabalável e um talento único encapsulados numa discreta e pequenina presença, Tati Pimont é um exemplar dos mais representativos do que a devoção ao DJing em toda sua riqueza expressiva pode nutrir. Foi através dela que granjeou o apoio de uma crescente base de aficionados por sua musicalidade e conquistou um espaço que também se encontra em constante expansão num cenário nacional e regional bastante competitivo.

Parte ativa de diversos coletivos e iniciativas que têm como sua principal razão o cultivo de uma audiência para o rico e farto material musical que atualmente nos cerca, ela encontrou um tempinho para criar uma viagem sonora que revela tanto uma artista em plena maturação quanto a culminação de uma trajetória intensa e repleta de momentos memoráveis.

Sei que já vejo você tocando há mais ou menos uma década, mas quando essa jornada começou de fato e como isso se deu?
Minha jornada começou de fato quando me apaixonei pelo universo da música eletrônica. Aos 17 anos já passava horas pesquisando os djs que iam tocar nos festivais, passava tardes procurando músicas e aprendendo diversos estilos e vertentes. Um amigo meu já era DJ na época e o meu gosto por procurar novidades musicais chamou a atenção dele e foi aí que foi plantada a ideia de ser DJ. No final de 2009 fiz um curso de discotecagem, comecei a tocar, e aos poucos fui desenvolvendo minha carreira e identidade. Considero que final de 2012 foi quando eu me achei musicalmente, comecei a comprar discos e fiquei mais próxima a Tati que sou hoje.

Seu nome já figurou entre escalações notáveis de festas no sul e sudeste que contavam com um amplo leque de estilos e artistas. Contudo, por mais diversas que sejam, elas orbitavam ao redor de gêneros mais próximos de sonoridades mais minimalistas do House do Techno. Afinal, como você definiria o seu som, se precisasse?
Eu sempre peço para que não haja essa definição. Música, para mim, não deveria ter rótulos. O Techno, House, Minimal, por exemplo. Quantos "Technos" existem dentro desse rótulo afinal? Já parou para pensar que esses rótulos se perderam há muito tempo? Eu acredito em músicas que me passam algum tipo de sentimento, que eu sinta afinidade e assim consiga encaixá-la em uma história no meio de outras músicas, que juntas vão fazer sentido para o momento.

Sempre gostei de muitos estilos. Tive épocas mais House, mais Techno, mais Minimal e me vejo em constante movimentação. Me rotular seria anular um universo inteiro que pode ser muito bem trabalhado, assim como me limita a ouvir o que eu gosto em geral. Até cheguei a me cobrar uma definição e isso me gerou uma confusão gigante internamente. Aí resolvi ser o que sou: do House ao Techno, do Breakbeat ao Electro, do Minimal ao Dub. Tendo uma boa sequência, tudo se encaixa e, de acordo com a proposta de cada festa, consigo me adequar da melhor forma sem perder quem eu sou.

Entre esses eventos, há alguns que foram decisivos para trazê-la até onde se encontra agora ou que saltem à memória como marcantes?
Ah, vários… (risos). Eu sou muito grata a todas oportunidades que tive até aqui. Da festa para 100 pessoas ao festival de 3 mil. Todas são importantes e têm sua beleza particular.

Algumas com certeza marcaram mais minha carreira, como o DGTL e Tribaltech por serem grandes festivais. Mas, além dessas, senti que a Mamba Negra, a ODD, as pistas da Subdivisions, Troop, Redoma, e uma edição da Sonore, onde estávamos entre 2 mil pessoas em um parque em Criciúma-SC, cada uma a seu modo, foram bem marcantes também.

E quanto ao espaço conquistado pelas mulheres em todos os âmbitos da música nos últimos anos, mas especialmente daquela tocada nas cabines com toca-discos, você enxerga a mesma mudança profunda que é alardeada por muitas frentes? Sua trajetória mesmo é um belo exemplo disso, mas como ela se encaixa nesse processo como um todo?
Os últimos anos foram exemplos das primeiras colheitas de frutos plantados há anos e mais anos de luta feminista. Fomos ganhando mais voz, mais espaço e visibilidade. Mas também senti que entrou uma "onda" que nem sempre é bem aproveitada, muitos ainda não entenderam nosso recado, e senti na pele gente querendo dar espaço fazendo do jeito errado. Colocando lines de mulheres tocando apenas para vender convite, ou ditar que está fazendo algo por nós, mas cobrando mais de mulher nos ingressos, ou colocando um line que não faz sentido algum sonoramente só para preencher o próprio ego, ou até colocando a gente em horários piores e cachês mais baixo do que para os homens que estão no mesmo patamar de carreira.

O que eu acho é que os contratantes precisam abrir cada vez mais a cabeça e se preocupar em fazer o CERTO. Questionar todo posicionamento e atitude, se perguntar se ele está fazendo da melhor forma, ou se continua sendo machista no final das contas. Abrir ainda mais espaço para as minorias. Tentar sempre encaixar mais de uma mulher nos line-ups, procurar novos nomes, criar oportunidades e realmente pensar em um universo mais igual para todos. E não só nos line-ups, não é só de DJ que se faz uma festa. Procure mulheres na produção, no bar, na segurança, na engenharia de som, no artístico e por aí vai... se abra mais para o todo. Abrace a causa e se questione, sempre.

Em relação aos toca-discos, eu sempre me senti um pouco pressionada por ter sido uma das únicas a tocar com essa mídia por uns anos. Talvez essa pressão foi colocada por mim mesma no meu subconsciente, mas sofri muito com isso e tive que batalhar muito para deixar essa insegurança de lado. Por ser tão minoria nesse quesito me sentia no centro de julgamentos e isso me travava, já que não tinha liberdade para errar.

Hoje vejo mais mulheres tocando com vinil, eu também já não sinto toda essa pressão sobre mim, mas ainda falta. O que eu digo para quem quer começar a tocar com vinil é: COMECE! Eu já ajudei bastante gente, e estou super a disposição para quem quiser saber mais sobre, é só me chamar. Treine, treine e treine mais. Se joga, se permita errar, vá atrás do seu sonho e não deixe ninguém entrar na frente disso.

Este mix finalmente desencantou, após muitos atrasos e até um risco de eliminação devido a problemas técnicos. Levando em conta tudo isso, você ainda lembra qual foi a motivação ou a inspiração principais para eles?
Sim! (risos) Eu quase o perdi junto com o meu HD, por sorte tinha salvo em um pendrive.

Bom, eu ainda me lembro bem a noite que gravei. Não fazia muito tempo que eu havia gravado um podcast para a Discobar que estava com uma proposta mais pista. Liguei os equipamentos em casa e me deixei fluir por sentimentos.

Escolhi músicas que me tocam, que me trazem elementos sonoros que vão além de pista. Um podcast com carinho, para ouvir em qualquer lugar. Na praia, no carro, em casa, no esquenta.. Uma gravação que diz muito do que eu gosto de ouvir no momento.

Obrigada pelo convite e espero que gostem!

Agora falemos do futuro, imediato ou mesmo distante: o que ele guarda para os amantes da música da Tati Pimont que ela possa compartilhar conosco neste momento?
Olha, eu passei por um ano um pouco mais introspectivo, com algumas mudanças internas e bastante foco no meu outro trabalho e metas pessoais. Nos últimos meses me dediquei a uma renovação, vendi discos, comprei novos e agora estou torcendo para o segundo semestre aparecer várias GIGS para tocá-los.

Além disso, faço parte da idealização da festa TR3VO, na qual estamos trabalhando na segunda edição ainda esse ano e belas novidades para o ano que vem. E, por último, também estou por trás da MNPB, agência na qual faço parte e estamos prospectando coisas boas para o ano que vem.