Thiago Guiselini

Por Alan Medeiros (Alataj)

image4.jpg

Thiago Guiselini carrega em sua essência a alma de um verdadeiro digger. Garimpando preciosidades entre as record shops de São Paulo e de diferentes partes do mundo, Thiago montou seu arsenal pessoal com o passar do anos e o guardou a sete chaves até a concepção da Amor Records, loja de discos dirigida em parceria com o também brasileiro Robles.

A partir de então, Robles cedeu boa parte de sua extensa coleção para o catálogo da loja, que fica situada em Lisboa, uma das novas capitais da dance music ao redor do globo. Juntos, eles iniciaram um garimpo no modo hard para complementar o o catálogo da loja, essencialmente formado por preciosidades brasileiras e de outras partes do mundo, além claro de joias da house. techno e disco music, selecionadas a dedo por eles. 

A nosso convite, Guiselini retorna ao deepbeep para um novo mix. Dessa vez ele mergulha em uma pesquisa musical ainda mais profunda para entregar uma nova experiência, que diz muito sobre seu perfil de discotecagem atual, mas não deixa de lado suas raízes enquanto digger. Confira:

Olá, Thiago! Tudo bem? Talvez ainda seja cedo pra concluir algo, mas até agora, quais são suas impressões sobre a atmosfera musical de Lisboa? Há algo em comum com o que rolou/está rolando em Sampa?
E ai, tudo certo! Sim, ainda está bem cedo para um parecer mais amplo, preciso rodar muito por ai, são muitas coisas acontecendo e a vontade é estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Foram apenas 5 gigs na cidade e estou imerso na loja todos os dias, conhecendo muitas pessoas e construindo parcerias. O verão está logo ai e tenho boas datas pela frente, estou ansioso para desbravar ainda mais essa cidade. A Amor Records está de viagem para o Algarve participando com uma loja pop up dentro do Et Cetera Art Music festival, participamos também do Lisboa Eletrônica e estamos planejando o próximo festival já para setembro. 
Então, o lance das festas fora de clubs está começando a ganhar força por aqui, nós mesmos já estamos organizando uma festa na rua durante o mês dos santos populares, que é muito importante aqui. De dois anos para cá vários coletivos surgiram pela cidade, meio parecido com o que rolou há 6/7 anos em São Paulo, festivais recentes estão cada edições maiores e com ótimos line-ups, a cena cultural num todo está bem forte no momento. Até pouco tempo havia apenas um club de grande expressão, agora já abriram mais dois com ótima estrutura, serviço e curadoria artística. 

O que exatamente te motivou a se mudar para Portugal? Abrir uma record shop no Brasil era inviável?
Sempre tive vontade de morar na Europa, viver uma experiência por aqui. Lisboa está crescendo, tem uma boa ligação com o Brasil e é o local mais próximo do nosso país aqui no velho continente. Em 2016 ainda morava em Sydney/Austrália quando soube que um dos meus sócios estava de mudança para cá também, nos falamos, vimos que tínhamos os mesmos interesses e acabou dando certo. 
Começamos a nos organizar quando voltei para São Paulo em 2017. 
Acredito que no Brasil é viável sim, como existem boas records shops pela cidade, talvez seria até mais fácil, o problema são as importações que acabam dificultando o processo e demorando demais a chegada dos discos novos, como já tínhamos definido morar em Lisboa e estava tudo alinhado não tinha como ser outro lugar.

O processo de abertura de uma loja de discos é certamente um grande desafio. Conta pra gente quais foram os principais obstáculos que você e seus sócios tiveram de superar na montagem da Amor Records?
Com certeza o processo de garimpo dos discos no Brasil, catalogar todos esses discos um por um, limpar, colocar capa de proteção e trazer essa grande quantidade para cá. Achar um ponto pra loja também não foi tarefa fácil, Lisboa tem pouca oferta de imóveis e eles estão bem caros no momento.
A questão burocrática foi simples, pois como somos cidadãos europeus isso desenrolou rápido, abrimos a empresa em poucas horas, aqui a burocracia é bem mais ágil. A logística, escolher o ponto e o layout da loja foi o mais complicado.

Percebo que há muitos DJs e produtores, incluindo alguns nomes que antes moravam em Berlim, se mudando para Portugal. Na sua visão, a cena clubber do país está pronta para ser um dos grandes epicentros mundiais?
Sim, esse movimento está ocorrendo mesmo e acredito que só irá aumentar. Recebemos muitos DJs aqui na loja e muitos sondam, questionam e dizem que querem se mudar para cá. O país está em grande expansão, muito investimento entrado na cidade, turismo a todo vapor, artistas de todas as áreas, novas festas e festivais surgindo, então é natural a cena evoluir junto, muitos espaços criativos aparecendo também, festas e shows em espaços públicos só aumentam e isso chama a atenção.
  
Quanto ao futuro da Soul.set. Quais são os planos para a festa? Você pretende produzir algum evento aí em Lisboa?
Assim que eu tiver mais tranquilo pretendo voltar e fazer uma edição em São Paulo, a ideia é fazer no mínimo duas por ano por aí,  tudo no seu tempo e quem sabe uma primeira edição por aqui. Tenho que organizar muitas coisas além da loja, label, agência, eventos e claro que a Soul.Set está dentro desses planos, afinal ela é minha cria do coração. Tenho alguns planos com a assinatura do label também.

Para montagem desse mix, qual linha de pesquisa você seguiu? É possível dizer que essa atmosfera musical representa seu atual momento?
Na verdade não foi uma mix e sim uma seleção musical. Comecei a responder as perguntas e soltei o primeiro som, estava na loja fechada, luz baixa após um evento que teve por aqui. Fui fazendo uma escuta sem compromisso de mixagem ou de montar um set para pista. São músicas de pesquisas diversas nos últimos anos que nunca toquei, mas que passeiam por diversas sonoridades. Encerro com um sample lindo de Nina Simone.

Percebo que, com o tempo, a figura real do DJ perdeu um pouco de força para os produtores. Mas, graças a artistas como você, isso tem mudado e a pesquisa musical voltou a ser um atrativo em meio a grandes line ups. Como você avalia esse momento de valorização ao Disc Jockey?
Foi meio que natural, com a vinda dos softwares tudo ficou mais fácil para apresentação de um produtor, o que no passado era bem raro, antes a música eletrônica era produzida por diversos hardwares, além de ser um processo mais lento a logística não era das mais fáceis. Acho que o DJ sempre terá seu lugar, o lance da pesquisa é muito importante para dar uma dinâmica única para pista. É uma ferramenta que temos a nosso favor, podendo traçar um caminho muito vasto em nossas apresentações. Muitos pensam que ser DJ é uma tarefa simples, mas quanto mais me especializo mais sinto-me ignorante e vejo que tarefa simples era a vida de escritório. 

image2.jpg

A última. Pessoalmente e emocionalmente, quais são os principais desafios de uma carreira na música eletrônica?
Essa questão é bem difícil, se for analisar todo o percurso com certeza sairão lágrimas em algum momento, nenhum processo é fácil, seja na música eletrônica ou qualquer expressão artística, na trajetória da vida, viver já é emocionante e temos que agradecer por estarmos aqui seguindo nosso caminho todos os dias. Acho que o maior ensinamento é nunca desistir, se acredita corra atrás, estou nessa há 17 anos e ainda encontro desafios, como agora uma cidade nova, começar muitas conexões, projetos novos, uma nova jornada. Mas acredito que o maior desafio é esse, a persistência, não abandonar o barco quando as coisas complicam, como dependemos de algo que não temos uma estabilidade todo mês, como lidar com o risco de produzir festas que é altíssimo, o lance é respirar fundo e acreditar, fazer o que está dentro de você.