Traffic Jam

por Marllon Gauche

Trânsito, movimento, tráfego, fila, engarrafamento… não importa como você define aquele momento infeliz de estar dentro do carro preso na avenida da cidade, onde não há nada o que se possa fazer, o importante é estar sintonizado com um som que te ajude a transformar um momento monótono e estressante em algo prazeroso. Foi esse insight que Joao Pedro teve para dar vida ao seu projeto musical, Traffic Jam.

No início, eram duas pessoas: ele e outro integrante do núcleo da Radiola, mas hoje ele comanda o projeto de forma solo e vem se tornando um artista respeitado no cenário artístico por sua habilidade no decks, seleção apurada, explorando diferentes tempos da música eletrônica, unindo melodias e levadas da house music numa mistura ousada e totalmente original.

A curiosidade bateu na porta e então convidamos Traffic Jam a compartilhar um pouco mais de sua história com a gente. Como é de praxe, recebemos também um mix que dá uma palhinha de seu rico background musical, seja para ouvir no tráfego da cidade ou no conforto de casa.

Olá, Joao Pedro! Obrigado por conversar com a gente. Você atualmente é uma das figuras centrais da noite curitibana, muito por seu envolvimento com o núcleo da Radiola. Como foi o começo dessa aventura?
Tudo começou com nosso grupo de amigos. Frequentávamos assiduamente o Warung e sempre nos reuníamos nos dias de semana pós club para ouvir música e conversar sobre o que havia rolado na noite. Isso resultou em um grupo no Orkut (sim, naquela época) que se chamava Radiola Undrgnd, onde escrevíamos o que conversávamos nesses encontros.

O grupo foi crescendo e, além dos nossos amigos, foram entrando vários outros entusiastas e profissionais do ramo, chegou um momento que já estava consideravelmente grande. Naquela época o Albuquerque tomou a iniciativa e lançou a festa Radiola, a primeira rolou em 2011, e logo depois veio a gravadora e o coworking, em 2012, junto do Guilherme Assenheimer (Haustuff).

Lembro que meu envolvimento era apenas como amigo, eu sempre ajudava no que podia. Uma das minhas primeiras gigs foi em uma festa da Radiola, creio que a segunda ou terceira edição que teve, no final de 2011, mas o protagonismo em fazer o fórum virar uma label foi do Ricardo e do Guilherme. Entrei profissionalmente no projeto (e também na carreira) em 2015, quando mudamos para a nova sede, a partir daí meu envolvimento só aumentou.

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Grandes DJs colocam a música certa para tocar na hora certa, isso faz parte daquilo que chamamos de repertório musical e leitura de pista. Você dedica um tempo exclusivo da sua rotina para pesquisa? Como o Traffic Jam vem construindo sua própria identidade?
Sim, além de dedicar a pesquisa de fato, que seria direto nos sites de compras, ela nunca para, mesmo no carro ouvindo um set, Spotify, ou na casa de alguém despretensiosamente ouvindo uma música. Quando saio, seja para tocar (que acabo também ouvindo os outros DJs), ou para curtir, essa pesquisa não para, uma música acaba ficando na tua cabeça, você vai atrás, descobre a label, novos artistas e assim vai.

A minha identidade foi e é criada baseada nas minhas experiências quando estou na pista. Já ouvi muitos DJs de diferentes estilos em situações diferentes, isso fez eu desenvolver meu senso crítico e querer também criar meu próprio senso artístico. O Warung foi e é um dos grandes responsáveis em ajudar a criar minha identidade, vivi muitos momentos inesquecíveis lá, percebi que existia uma energia diferente, que se eu soubesse aproveitar, iria me acrescentar muito como artista e também como pessoa.

Muito provavelmente essa sua dedicação tenha grande peso nas suas conquistas recentes, certo? Em breve você embarca para uma tour internacional, com Londres e Barcelona na rota. Como foi ao receber a notícia e o que isso representa para você?
Sim, creio que a constância cria o cenário para isso ocorrer. Fiquei extremamente feliz em poder tocar nessas cidades que já visitei, indo para curtir as festas, conhecer a cultura eletrônica e agora podendo mostrar meu trabalho nessas capitais mundiais da música (e das artes). Com certeza vai me acrescentar muito como artista.

Nestes casos há uma pesquisa e um estudo especial para construir seu set? Afinal será um público totalmente novo para você…
A minha dedicação para cada gig já é bem intensa, pois sempre estou tocando em diferentes situações, por ser residente de um núcleo como a Radiola, faço warm up, closing sets, toco em festa de House e agora também com o viés progressivo junto da Sonido Profundo. Então já estou acostumado a destrinchar ao máximo e entender exatamente em qual situação estarei, mas claro, tocar para um público de outro país exige uma atenção especial, é necessário estar atento às influências de cada local e estilos de cada festa.

Estou confiante, creio que fora as pessoas são um pouco mais abertas a diferentes sonoridades, então terei mais liberdade em explorar sons não necessariamente de “pista". Pelo nome Traffic Jam ser uma novidade à eles, também tenho a “vantagem” de que o público não sabe muito o que esperar, o que deixa uma brecha para que eu possa surpreender ainda mais.

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O nome "Traffic Jam" vem da ideia de transformar o momento do engarrafamento no trânsito para uma experiência musical agradável... Este mix foi construído com este intuito também? Com o que ele harmoniza melhor?
Com certeza, tenho a ideia que podcasts são uma oportunidade pro artista tocar sonoridades diferentes, que não necessariamente tocaria nas pistas, até porque a maioria das pessoas escutarão no carro, em casa, etc. Esse em específico ficou uma mistura de momentos mais relaxantes com batidas quebradas, algo que me atrai bastante. É uma união de momentos tranquilos e introspectivos com beats elaborados, não tem erro para colocar no carro e deixar rolar [risos].

Para finalizar: o que mais podemos esperar até o fim do ano? Além do horizonte internacional, existem outras novidades que você já pode compartilhar com a gente?
Assim que eu retornar da Europa, no final de outubro, já terei uma gig na mesma semana no Warung, dia 1º de novembro. Estou realmente muito feliz em retornar ao meu club favorito. Também irão rolar mais episódios do meu podcast TRAFFICAST, que é exatamente sobre o que falamos acima, mostrando um pouco do meu lado B. Fique de olho nas minhas mídias para saber dos próximos episódios e também das gigs de final do ano! Obrigado pelo bate-papo deepbeep.