Vivi An

Pro Francisco Cornejo

O momento atual em que a cidade de São Paulo se encontra pode não ser o mais alentador em muitos aspectos, mas certamente é um dos mais auspiciosos para a cena eletrônica independente e tudo que ela engloba. Entre tantas festas, coletivos e artistas novos que construíram essa história, alguns deles parte desse trajeto desde os momentos mais embrionários dessa cena hodierna.

Entre tantos nomes, Vivi An é um relativamente novo para os que chegaram recentemente, mas conhecido de todos que, como ela, aproveitaram muitas das melhores fases que a música eletrônica dançante teve no decorrer de sua existência na metrópole paulistana. Tanto como apreciadora, colecionadora ou seletora desse gênero, sua presença sempre foi algo constante nos locais onde os vários elementos dessa cultura eram cultivados, celebrados ou comercializados.

Nesta seleção fascinante de faixas, ela consegue criar uma atmosfera envolvente e cheia de sutilezas, intimista o suficiente para ser ouvida nos recantos mais confortáveis de nossas rotinas e excitante o bastante para ser curtida em momentos que requerem um clima animado. Em suma, versátil como sua criadora.

DSC_0231+%282%29.jpg

O rolê musical todo já é parte da sua vida há um bom tempo, né? Mas, mesmo conhecendo-a há tempos das pistas, só recentemente essa presença como uma soberba seletora ganhou mais proeminência. Teve algum motivo especial que causou essa mudança de um lado da cabine para o outro ou foi fruto de um desenvolvimento natural?
Acho que das nossas vidas, né? Esse rolê começou cedo e de forma intensa em muitos momentos.

O envolvimento com as pistas e a pesquisa musical sempre foram prazeres interligados que me completaram tão bem que não passava pela minha cabeça um dia me tornar DJ, mas eu posso dizer que depois de aprender a tocar a relação com a música ganhou um novo sentido e ver o apoio crescendo de repente através de tantas boas oportunidades foi decisivo pra eu assumir o outro lado da cabine.

Fazemos parte de uma geração que viveu de muitas transformações que acabaram por criar as condições sobre as quais esse momento atual foi construído. Como foi para você ver tudo isso se desenrolar ou mesmo fazer parte desses processos?
Transformações consideráveis, eu sinto que o processo de evolução demorou um tempo pra acontecer mas quando chegou foi acontecendo com muita velocidade, e tem sido assim. É preciso ter um ritmo dinâmico e a mente aberta para o novo,sempre. As mudanças possibilitaram um maior acesso e crescimento ao universo da música, eu vejo isso como algo positivo.

É maravilhoso que o mundo respire música, é inspirador quando novas formas de arte surgem, seja através da tecnologia ou de novos artistas com ideias e estilos diferentes. Acho fundamental que o cenário esteja se renovando constantemente mas é importante que seja complementador. Percebo que existe muita competitividade na busca por um espaço, nem sempre o mercado é justo nas oportunidades e no reconhecimento do trabalho de um artista. Como muitos eu busco o meu lugar, é uma jornada exaustiva as vezes, requer muita dedicação, experiência que só vem com o tempo e acima de tudo amor verdadeiro pela música. Cada conquista tem o seu valor mas tenho em mente que o mais importante está em conduzir, cada vez melhor e além.

Há momentos especiais nesse trajeto que você veja como fundamental na sua formação?
Durante toda trajetória cada experiência tem somado, nas festas acompanhando o trabalho de artistas que me influenciaram e são referência pra mim, o período em que eu trabalhei em loja de CDs e tive um contato ainda maior com os mais diversos gêneros musicais, nos convites para podcasts e especialmente as primeiras festas acreditaram em um possível potencial e me deram oportunidade de colocar a prova esse conhecimento. O aprendizado acontece principalmente nos momentos desafiadores e um desses mais especiais foi a primeira vez que eu toquei na ODD há 2 anos atrás, foi minha estreia em uma festa grande, conduzindo a abertura de uma pista experimental por 4 horas de set. Foi muito intenso e maravilhoso, me deu o impulso que faltava pra seguir.

E qual o cerne criativo deste mix? Ele tem um momento do dia para ser apreciado, algum lugar da cidade para sonorizar ou alguma refeição com a qual harmonizar?
A ideia principal foi construir uma estória tocando sonoridades que contam um pouco sobre a minha essência. Tem sons que eu gosto de ouvir e nem sempre tenho a oportunidade de tocar na pista. Pode ser apreciado a qualquer momento mas eu recomendaria a atmosfera de um final de tarde pelas ruas e parques. A harmonização pode ser feita com elementos delicados, provocantes e desafiadores.

E daqui em diante, além dessa ODD e desse set fabuloso, o que mais se insinua no seu horizonte que ache que valha pena compartilhar conosco?
Essa edição com certeza vai ser uma das mais poderosas, estou muito contente em fazer desse line-up absurdo! A ODD sempre me proporciona experiências fantásticas. Também fiquei feliz demais em receber o convite pra esse set aqui no deepbeep! Acompanho a serie de podcasts desde o começo e adoro o cuidado com que cada trabalho é apresentado. Esse espaço significa muito pra mim. ️

Ainda essa semana eu retorno a Brasília para tocar no Festival Beco Elétrico, mais uma vez junto com o coletivo SNM, uma das festas independentes que vem fazendo um corre verdadeiro por lá e tem apoiado meu trabalho há um bom tempo. Tô animada :) festas de rua tem uma energia incrível. Nos próximos meses tem data em cidade que nunca toquei e alguns eventos a serem confirmados. Sigo com minha residência na festa Dispersão que acontece mensalmente na Trackers, tem sido muito legal e enriquecedor participar de um projeto dedicado especialmente ao Dub Techno, estilo que eu sou apaixonada e agora tenho a possibilidade de explorar com liberdade e satisfação.