Algumas notas sobre Grant

Por Brune

Hoje eu acordei com as costas travadas. Provavelmente, isso tem a ver com o fato de eu ter andado muito a pé durante o mês passado, em que viajei para a França, sem me alongar uma única vez. Fui em ocasião da minha pesquisa de Pós-Graduação em literatura fazer um estágio de pesquisa na Biblioteca Nacional da França. Mas ficar na biblioteca, apesar de não ser absolutamente algo que me desagradava, era o que eu menos queria. Enquanto eu lia sentada naquelas mesas gigantes (tudo é gigante na BNF), eu olhava pelos vidros o céu muito claro e azul e não raro adiantava em algumas horas a minha saída para poder perambular por aí, no início marcado da primavera. Na maior parte das vezes, eu substituía o metrô por uma caminhada longa até onde eu deveria ir; às vezes, chegando perto de casa, eu ainda estendia o trajeto e dava voltas extras unicamente pelo prazer de andar. Era preciso também estar com o meu destruído fone de ouvido de "civil", um Sony com um grave excessivo e as almofadinhas rasgadas, exatamente como eu faço todo o tempo em São Paulo.

Lá comprei meus primeiros discos. Não foram muitos porque eu já contava com um excedente de peso nas malas e nenhum dinheiro sobrando. A primeira loja que conheci foi a Yoyaku, que fica no fundo do saguão de um prédio em reforma em Belleville, um dos meus bairros favoritos da cidade porque me lembra um pouco o Bom Retiro, um dos meus bairros favoritos de São Paulo. Cheguei na porta e fiquei um tempo até decidir se poderia simplesmente entrar (a porta parecia trancada), se deveria tocar uma campainha, se deveria chamar alguém (esses pequenos protocolos e automatismos cotidianos que se apagam quando estamos num país estrangeiro – é sobretudo aí que os deslocamentos de perspectiva se operam gradativamente). Duas moças saíram do prédio para fumar:

- Bom dia, com licença, vocês saberiam me dizer onde fica a Yoyaku?

- É bem aqui mesmo.

- Obrigada.

Logo numa das primeiras prateleiras de discos, eu vi o Grant. Eu já o conhecia porque sabia que um de meus mestres, Ney Faustini, havia tocado duas de suas faixas no set para o último Dekmantel em São Paulo, no delicioso palco Na Manteiga, e essas faixas já haviam me deixado de anteninhas em pé. Mas eu nunca tinha efetivamente parado para escutar com atenção até encontrar o disco Perception na loja, que aliás foi o meu primeiro vinil, e ter passado 3 horas ouvindo-o repetidamente no toca-discos. Para conseguir ouvir na rua, eu procurava as músicas no Youtube em qualidade duvidosa e gastava literalmente toda minha internet móvel só porque sentia muita saudade das faixas (elas não estão no Spotify e a maioria não está no Soundcloud).

Take a Chance – Grant, Perception (Duke’s Distribution)

Em 2015, um ano após o primeiro lançamento do artista sob esse pseudônimo, a Stamp the wax descreveu o som de Grant como real, serious and patient dance music. São também alguns dos adjetivos que emergem vagamente na minha linguagem quando ouço Grant: há alguma coisa de profundamente aliada, profundamente comprometida, nomeando genericamente, com uma música com alma, ao mesmo tempo que minuciosa e paciente. Talvez isso tenha me carregado para incursões verdadeiramente transcendentais, verdadeiramente memoráveis dentro da incursão maior na França (ouvindo agora, enquanto escrevo este texto, eu lembro perfeitamente da avenida Beaumarchais, que eu cruzava repetidas vezes para chegar na casa de uma amiga, dos corredores compridos das estações de metrô para fazer baldeação, lembro também do cheiro pouco agradável da cidade e das minhas pernas doídas de tanto andar sem estar acostumada a fazer exercício, do remorso cristão por sentir tanto prazer num momento tão delicado do meu próprio país do qual eu estava ausente). Há algo de sólido, repetitivo e paciente na música de Grant, que se vincula bem com o alinhamento dos passos e a paciência necessária para se propor a caminhar durante quarenta minutos. A partir desse gesto simples e dessas incursões impalpáveis, suplementares, eu me apaixonei pelo universo criado por essa pessoa desconhecida e por tudo o que esse universo é capaz de conter. Não me senti assim tantas vezes na vida, lembro-me com clareza: Björk, Virginia Woolf, David Lynch, André Gide, Tolstói. E agora Grant.

A minha formação em teoria literária me deu a oportunidade de perceber que não sei falar "cientificamente” sobre nada, por mais que minha linguagem por vezes dê a entender uma certa propriedade. Eu sei falar sobre como as coisas me tocam e criar relações a partir disso. A cientificidade é também uma espécie de máscara da linguagem. Um crítico literário e psiquiatra suíço chamado Jean Starobinski, um de meus autores favoritos na teoria da literatura, certa vez disse que, depois da leitura crítica, nem o livro permanece o mesmo, nem o leitor permanece o mesmo. São como dois círculos simultâneos em direções opostas, um que sai do leitor, passa pela obra, e volta para o leitor. O outro que sai da obra, passa pelo leitor e volta para a obra. Dessa forma, nenhum dos dois permanece o mesmo depois dessa por ele denominada relação crítica: trata-se de um duplo círculo hermenêutico. Essa tese vai contra o pressuposto cientificista mais comum cuja prerrogativa é de que os sujeitos se apaguem enquanto apenas o objeto seja iluminado pela crítica impessoal. E quando é a música esse suposto objeto que ilumina um sujeito tão incisivamente tocado por ela que já não é capaz de falar sobre nada objetivamente, para o qual a objetividade inclusive vai parecer um incomensurável logro inventado pela humanidade? Esse sujeito ainda assim precisa falar, porque gosta de jogar bem nesse limiar impalpável entre a música e a língua. A vontade deste texto nasceu precisamente daí.

O EP Perception foi lançado pela Duke’s Distribution, um selo do próprio Grant, dedicado à música para além das fronteiras dos gêneros. Grant está envolvido, além disso, com dois outros labels: o homônimo Grant e The Lauren Bacall, no qual lançou com o igualmente misterioso produtor Gable. Essa dissolução das produções manifestas em selos próprios e pequenos, ainda pouco difundidos (tirando o lançamento na respeitada Lobster Theremin, No Lights, e o álbum Cranks pelo subselo da gravadora, Mörk), configura, para além do pseudônimo Grant e da máscara, um apreço pela música em si, pelo comedimento em produzir apenas uma série limitada de vinis, pelo foco na própria música e não no ego do artista (ainda que imaginar uma criação humana sem ego seja invariavelmente uma ingenuidade).

Shifting Views – Grant, Cranks (Mörk)

Grant une duas qualidades com as quais me identifico nos artistas que, de forma intuitiva, escolho para integrar meus sets: kicks fundados em graves pesados, que são capazes de preencher uma grande sala, simultâneos a uma absoluta leveza melódica, a uma espécie de volubilidade ou nuvem avermelhada, a uma coisa infinitamente etérea. Grant pertence às alturas, à atmosfera, sentida da mais sólida base, que contrasta e ressignifica o que está em cima. Não por acaso, duas capas de dois já mencionados álbuns, Perception (Duke’s Distribution) e No Lights (Lobster Theremin), são fotos compostas por estruturas de concreto que contornam uma abertura para o céu. A ampla visão com continente, assim como Jung dizia a respeito do oráculo Iching: o oráculo nada mais é que um recipiente que dá forma à amplitude (e por vezes à bagunça) das emoções sem norte.

Trata-se de aberturas limitadas e contidas de uma visão ora do horizonte, ora unicamente do céu – uma visão, de todo modo, uma apreensão possível da amplitude. Um mínimo recorte que dá acesso a uma grandeza sem nome.

Em uma entrevista para a XLR8R, Grant é questionado sobre sua específica técnica de sampleagem. Ao que responde:

When I am in the studio and start working on a track, I really have no specific idea of what I am going to make. So, really a sample will entirely dictate the direction I am going to be taking on so many levels, including the texture, the length, and the style of the sample (a drum hit or loop, vocal snippet, etc). Sometimes the actual key of that sample also guides me; I very rarely make a track that does not include some sort of sample, even the smallest bit.

A sampleagem é aqui o continente que engloba a variedade de referências sonoras que povoa aquilo que mais comumente se chamava, no século retrasado e às vezes ainda hoje, de gênio de artista. A sampleagem é também uma espécie de bússola que orienta a experimentação e a criação de forma geral.

Essa onipresente técnica de sampleagem é evidentemente bastante específica: os vocais, por exemplo, estão quase sempre presentes pontuando instantes catárticos na música ("Hommage", "Around the Edge", "Out West" do projeto paralelo de Grant com Dan Piu, Theory of Movement), instantes também de transição de um primeiro momento introdutório para a inserção de novos elementos de maior densidade na faixa. Trata-se, assim, de uma seta para uma potencial explosão, mas ao mesmo tempo esses samples aparecem com discrição, providos de módicos loops, como uma verdadeira pontuação. Alguma coisa se presentifica e passa, isto é, os samples pertencem ao presente – assim como a meditação nos convoca obstinadamente para o presente. Nesse sentido, não se trata jamais um som que grita e apela, mas que cativa pela paciência e comedimento: a própria letra de Scattered Knowledge, de Perception, sugere que many have abused it, we're just dancing to abuse, oferecendo ela própria uma possibilidade interpretativa das estruturas por baixo de toda a verdadeira profundidade do deep house atmosférico de Grant: não se trata de abusar, de transbordar, mas de envolver com profundidade dentro da mais plácida calma. Esse elemento gera o efeito, ou talvez para mim que sou obsessiva, de que é preciso ouvir ainda muitas as vezes a faixa para ser atingido por aquele mesmo prazer naquele mesmo momento. Uma ânsia do presente, de forma paradoxal. Uma de minhas faixas favoritas do álbum é "My Definition", que imagino como uma espécie de meditação dançante: a meditação é a completude daquilo que é vasto contido na quietude do gesto de sentar-se de pernas cruzadas.

Scattered Knowledge – Grant, Perception (Duke’s Distribution)

Nessa mesma entrevista, Grant pontua o seguinte a respeito de seu misterioso pseudônimo que, ao que tudo indica, mascara um produtor já conhecido na cena de música eletrônica, mas com o qual o músico gostaria de cortar os vínculos pré-existentes:

We all tend to categorize things in a pretty strict set of boxes; we often think someone is supposed to sound a certain way even before the first beat hits; we are already biased in a good or bad way depending if we are a fan or not of that artist. I wanted to bypass that entirely.

Reconheço em Grant aquele mesmo desejo de não se enrijecer, que primeiramente me fascinou no escritor André Gide (o autor que fui para a França estudar), cujas obras destoam estilisticamente e tematicamente entre si, questionando a própria ideia de autoria dentro de uma contínua obsessão por máscaras. Uma das obras mais famosas de Gide chama-se Os moedeiros falsos, título que por si já põe as cartas na mesa. Nela, um escritor chamado Édouard redige um romance intitulado Os moedeiros falsos. O romance sendo escrito dentro do romance é a caixa dentro da caixa, as bonequinhas russas, técnica que foi cunhada pelo próprio Gide no começo do século passado por meio do termo mise en abyme. Esse desejo de pôr em abismo é um dos recursos empregados para não se fixar em termos de autoria, de tentar escapar a uma irremediável categorização pela indústria, recorrendo a máscaras. No caso de Grant, a técnica equivaleria a uma dispersão de selos próprios e a um resguardo da identidade biográfica (recentemente desvelada pelo próprio artista), que remetem a um contínuo desejo de movimento e à liberdade em poder não se identificar previamente com o que se criou. De partir do tempo presente e stick to it. Questionado numa outra entrevista para a Truants sobre o título de seu álbum, Cranks, Grant responde: "well, a crank is a person who holds an unshakable belief that most of his or her contemporaries consider to be false".

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Eu me lembro de já ter pensado que os artistas de que gosto são uma espécie de companhia: um livro é um remédio para a solidão, uma faixa é um remédio para a solidão. Discotecar para mim se trata sobretudo de ouvir música acompanhada. Hoje eu acordei com as costas travadas e ainda assim não resisto a dançar descalça na sala enquanto ouço muitas vezes seguidas o álbum Perception.