No Lente Kabinet cabe todo mundo

Por Georgia Kirilov

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A primeira surpresa em qualquer situação social holandesa quase sempre se origina da capacidade extraordinária dos locais de pedalar para qualquer lugar, com qualquer roupa e em qualquer estado... A chegada no Lente Kabinet não foi diferente, porém a caravana de amigos brasileiros indo prestigiar Millos Kaiser e Barbara Boeing mal sabia o quanto a tal da bicicleta seria necessária até o fim do dia (mais sobre isso depois.) Ao chegar na reserva natural Het Twiske onde a oitava edição do pocket festival do Dekmantel acontecia, já se percebia que de “pocket” o festival não tinha é nada. O Lente Kabinet é um “lado B” do Dekmantel que acontece todo ano desde 2012 por somente um dia, assim dando a oportunidade de trazer ritmos mais experimentais e não necessariamente voltados para pista, assim como artistas que se apresentam em diferentes formatos e não somente comandando cabines e mixando. A receita deu certo e o festival cresceu tanto que, desde o ano passado, a produção decidiu extender a farra por mais um dia.

O espaço do parque foi explorado de maneira criativa e dinâmica dando a sensação de intimidade que o Dekmantel não oferece com suas grandes multidões e palcos extremamente elaborados. Diversas instalações de luz e fumaça faziam com que o percurso entre os palcos fosse misterioso e lúdico - fato dado também pela falta de sinalização entre os mesmos e os benditos nomes holandeses que mais parece uma nomenclatura dada por alguém bêbado tentando falar inglês. As instalações também foram peça chave em unificar a identidade visual de cada espaço, sendo o palco da Red Light Radio totalmente diferente, tanto visualmente quanto musicalmente, do palco Tweede Kamer, porém harmonizados por meio, e no meio, do caminho.

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Apesar de os maiores palcos, o palco principal, Eerst Kamer, e o Tweede Kamer concentrarem centenas de pessoas, a grande maioria dos ambientes propostos pela produção visava um número reduzido de pessoas e dispunha de diversos espaços para sentar e aproveitar o momento na pista da maneira que cada um quisesse. No sábado tais confortos foram celebrados, já no domingo debaixo da chuva a conversa foi outra... é surpreendente que um festival holandês tenha feito somente um mísero palco que ficava debaixo de uma tenda, assim deixando todo o público encharcado enquanto Todd Terje tocava no último dia.

No sábado, em que a chuva ameaçou, mas não vingou, grandes nomes como Peggy Gou, Mall Grab, Nu Guinea, Esa, Barbara Boeing, Mafalda, Millos Kaiser e Call Super b2b Shanti Celeste animaram ainda mais o dia que começou nublado e terminou ensolarado e vitorioso. Um dos sets mais animados do começo da tarde foi o de Daniel Wang no palco Tweede Kamer, enquanto Esa tocava no palco principal, a grande maioria das pessoas estava pulando debaixo da tenda tribal com estrelas pintada no teto. O que não diz nada sobre o set fenomenal do sempre incrível Esa, mas diz muito sobre o que o público do Lente Kabinet estava buscando... e o que eles queriam era experimentar de tudo um pouco.

A multiplicidade de estilos sendo propostos nos sets que aconteciam na mesma hora era de fato fascinante. Enquanto, no palco da Red Light Radio o Stallion’s Stud fez um live flertando com o freestyle que foi confuso e intrigante, no palco principal poucos minutos depois, Nu Guinea trazia seu show eclético, com o ritmo orgânico dos tambores colidindo com elementos sintéticos da mixagem, um espectro tão abrangente de lives é algo raro de se encontrar em festivais de música eletrônica. A medida que o dia foi desenrolando e os headliners chegando para fechar o primeiro dia de celebração, a DJ curitibana Barbara Boeing assumiu o púlpito da Igrejinha - palco construído em formato de Igreja modernista e sem dúvidas o canto mais legal do Lente Kabinet - e botou todos para dançar hip hop brasileiro dos anos 70 e 80, entre diversas outras pérolas oriundas da dedicada pesquisa que ela realiza diariamente. Depois dela todo mundo partiu para o palco principal finalizar a noite com a talentosíssima Peggy Gou, que destruiu tudo com um set que prova sua habilidade excepcional em mixagem, para muito além do que os olhos podem ver...

A saída do festival no sábado mais parecia um labirinto e quando finalmente conseguimos nos direcionar para o que parecia ser a saída, afinal a maioria avassaladora de pessoas andava naquela direção, nos deparamos com um gigante estacionamento de bicicletas e milhares de pessoas indo embora em cima das mesmas (!), causando assim um verdadeiro tráfego de ciclistas. Aqueles mesmos ciclistas que estavam na pista até 15 minutos atrás. Tivemos que andar por quase duas horas até achar as míseras 20 pessoas que também procuravam um carro e somente assim sair do parque, ainda estupefatos com a cena digna de um filme sobre um futuro utópico.

Para quem não se perdeu no after na de School, o domingão começou cedo. Mendel abriu o palco principal e a enigmática e cativante Paramida foi a segunda no palco Tweede Kamer. Um dos principais highlights foi Sadar Bahar com um set pontuado por jazz e soul no início e desenvolvendo para um afro disco e funk. Uma das maiores frustrações foi ter Antal e Jayda G tocando exatamente na mesma hora, a corrida do Tweede para o Eerst não tão agradável quanto foi no sábado debaixo da chuva. Todd Terje não é feito de açúcar, porém, e fechou o palco principal com cada vez menos público e a chuva cada vez maior. Tocou seus hits de house espacial e fez valer a pena quem teve coragem de ficar até o fim. Lena Willikens, Philip Jondo e Zaltan b2b DK também foram alguns dos preferidos do público no domingo.

Lente Kabinet mostrou mais uma vez porque dois dias é sempre melhor do que um e as possibilidades infinitas que se criam na fusão de ritmos do mundo, extrapolando qualquer noção pífia de fronteiras que domina a retórica global ultimamente. Um festival bem curado, discreto e despretensioso. Sem dúvidas feito por holandeses e primordialmente para holandeses, vide a falta de proteção para chuva, a predominância absoluta das bikes e a sinalização confusa para quem não fala o inglês de bêbado. Porém, o que fica nítido na Amsterdam cada vez mais colorida com seus novos imigrantes e suas culturas respectivas, é que ter espaço para cada expressão individual existir por completo é a máxima da intersecção, e bota todo mundo para dançar!

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